Obs...
Educação

A série Adolescência, da Netflix, tem causado impacto em muitos pais e educadores — e não apenas por sua trama envolvente. Em apenas quatro episódios, ela dá um choque de realidade: muitas famílias convivem diariamente com adolescentes que, no fundo, ainda não conhecem. Jovens que vivem sob o mesmo teto, mas cujos desejos, dores e silêncios continuam invisíveis aos olhos dos adultos.
A escola, como espaço de formação e convivência, não pode ignorar esse chamado. A série revela o esgotamento de modelos baseados apenas em vigilância, regras ou mesmo em estruturas afetivas aparentemente sólidas. Porque o verdadeiro abismo não está no tempo de tela ou no uso de emojis que os adultos não entendem — está na dificuldade de reconhecer que filhos, alunos, adolescentes em geral, são sujeitos em construção, com agência própria, que vivem num mundo de complexidade emocional e social que nem sempre conseguimos acompanhar.
Nesse cenário, a educação midiática e socioemocional se tornam aliadas poderosas para aproximar adultos e jovens. Não se trata de ter o controle, mas de criar espaço para escuta, curiosidade e vínculo. A escola pode (e deve) apoiar as famílias nesse processo, oferecendo não apenas ferramentas, mas também acolhimento — ajudando os adultos a lidarem com o susto de não reconhecerem os próprios filhos e, mais do que isso, a transformarem esse susto em oportunidade de reconexão.
Adolescência escancara uma verdade difícil, mas necessária: educar não é moldar. Não é seguir uma fórmula. É estar disponível para o imprevisível. E, nesse contexto, a escola pode ser o lugar onde famílias e educadores aprendem, juntos, a sustentar a complexidade que é crescer — e deixar crescer.
A reconexão, tão urgente hoje, precisa ser uma via de mão dupla. De um lado, gestores, educadores e famílias são convidados a olhar com mais atenção para os interesses dos jovens — não sob o olhar exclusivo do controle, mas como uma abertura ao diálogo. A educação midiática entra aqui como ferramenta essencial: ajuda as famílias a orientarem o uso das tecnologias de forma segura e crítica, e fortalece crianças e adolescentes para que saibam se proteger, analisar e refletir sobre o vasto conteúdo a que estão expostos.
A escola tem papel fundamental em promover essa aprendizagem. E para que esse processo seja efetivo, é necessário o envolvimento conjunto: famílias e estudantes também precisam se comprometer com essa construção.
Mas a reconexão não para por aí. O desenvolvimento de habilidades socioemocionais é igualmente indispensável — e uma das formas mais potentes de cultivá-las é por meio da leitura literária. O contato com livros permite aos estudantes vivenciar outras experiências, reconhecer emoções e compreender diferentes perspectivas. Como diz o autor Pedro Bandeira, “a literatura faz com que a gente sofra na pele, sem precisar sofrer na realidade”.
Alguns benefícios da leitura literária no desenvolvimento da empatia e da compreensão:
Ajuda a identificar e entender a perspectiva do outro
Amplia a capacidade de compreender intenções e emoções humanas
Permite experimentar realidades além da experiência pessoal
Contribui para nomear e elaborar emoções