Leitura“Pequeno Leitor de Papel”

20 de setembro de 2016

No mês passado, a equipe Guten foi ao lançamento do livro Pequeno Leitor de Papel, da jornalista Juliana Doretto. O livro é fruto da tese de mestrado de Juliana na ECA (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo). Trata-se de uma análise sobre como os suplementos infantis dos jornais lidam com o...

No mês passado, a equipe Guten foi ao lançamento do livro Pequeno Leitor de Papel, da jornalista Juliana Doretto. O livro é fruto da tese de mestrado de Juliana na ECA (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo). Trata-se de uma análise sobre como os suplementos infantis dos jornais lidam com o seu público. Para fazer tal análise, a jornalista selecionou vinte e cinco edições da Folhinha e vinte e cinco do extinto Estadinho durante o período de junho a dezembro de 2009.

Nas 167 páginas da obra estão registradas observações acerca de como o jornalismo infantil dialoga com o seu leitor, além disso, é levantada a questão do caráter jornalístico e informativo em suplementos desse tipo e como é necessário que tais veículos busquem cada vez mais conhecer o seu público de perto, sem subestimá-lo.

O jornalismo para as crianças tem a função, na minha opinião, de aproximar os veículos de mídia em geral às crianças.

Na última semana, conversamos com a Juliana pessoalmente. No bate papo, ela comentou sobre a função do jornalismo e como ela acontece na prática:

“O jornalismo para as crianças tem a função, na minha opinião, de aproximar os veículos de mídia em geral às crianças. A função social do jornalismo é fornecer conhecimento para que as pessoas entendam melhor a vida em sociedade, para que elas tenham ferramentas para entender melhor o que se passa naquele meio social. (…) Então, se o jornalismo tem essa função, o jornalismo infantil também tem essa função. Ele tem que seguir essas mesmas diretrizes. (…) A segunda função do jornalismo para as crianças é aproximá-las desses veículos de mídia em geral…”

Sobre a importância do jornalismo para criança e da sua elaboração, Juliana aponta que a criança está pronta para ter acesso ao que acontece no mundo, o problema é que poucos conteúdos dialogam diretamente com ela, daí a importância de suplementos e veículos específicos infantis, inclusive para preparar o jovem para ser um leitor assíduo no futuro:

“A criança tem acesso a tudo isso, mas nada está preparado para ela. E aí, esses veículos têm a função de falarem especificamente com a criança. Na minha opinião, é preciso achar uma forma de cativar o leitor, pensando que quando ele for um leitor comprador, ou um espectador com poder de decisão, já esteja habituado, entenda aquela linha editorial, além de cobrir a função social do jornalismo que também é para as crianças. (…) Eu sigo a linha chamada  “nova sociologia da infância”, que entende a criança, não como um ser em construção, mas como um cidadão, que tem direitos e deveres. Não é um “futuro adulto”; a criança já é um ser humano. Isso significa que ela tem limitações físicas, cognitivas? Sim, mas não significa que ela não tenha certo poder de decisão, capacidade de análise para entender o mundo em que vive, que ela não “ressignifica” tudo o que vê, o que experimenta.”

Outro ponto abordado é como os pais têm papel importante na consolidação do hábito da criança de acompanhar notícias:

Se a família não tem a notícia de maneira tão presente, a notícia para a criança também não vai estar tão presente.

“Se a família estimula que a criança leia, se tem um jornal, por exemplo, o pai lê o jornal e dá o jornal para o seu filho; ou vê na televisão, o noticiário, a notícia está mais presente. Se a família não tem a notícia de maneira tão presente, a notícia para a criança também não vai estar tão presente. (…). Então, a mediação familiar conta muito.”

Durante a conversa, foram discutidas as distinções entre o texto jornalístico e o texto didático, como as diferenças são nítidas e a necessidade de distinguir esses dois formatos. Juliana aponta para a amplitude do didático e para a essência noticiosa e atual do jornalismo:

“O didático tem conhecimentos mais amplos, claro que são dois objetivos que se misturam, mas o jornalismo trabalha com o contemporâneo, com o atual. O didático não trabalha com o atual. O didático traz a escravidão, ele pode trazer a escravidão sem relacioná-la com o presente. O jornalismo não vai fazer isso. O jornalismo vai falar de escravidão se houver alguma coisa acontecendo na contemporaneidade que sirva de mote para falar daquilo, que em geral vai relacionar com a vida do público que lê.”

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Com relação ao seu livro, a autora discorre a respeito de como os jornais objetos de seu estudo estavam alinhados à proposta noticiosa:

“Eu vi direcionamento jornalístico. Eu fiz uma diferenciação entre os temas das matérias. A minha crítica não estava nem na Folhinha, nem no Estadinho, em um caráter pedagógico acima do caráter jornalístico. Eles não tinham esse problema. Isso não é uma realidade de todos os suplementos para as crianças.”

A criança tem direito a receber informações, tem direito a participar dos veículos de comunicação, isso é um direito universal, ratificado pelo Brasil.

Juliana tem uma visão clara de que trazer a notícia em uma linguagem adaptada para a criança faz a diferença na forma dela querer ler e ver o mundo:

“Acho que é um direito dela, a gente segue muito a declaração dos direitos da criança da ONU, que diz que a criança tem direito a receber informações, tem direito a participar dos veículos de comunicação, isso é um direito universal, ratificado pelo Brasil… Por exemplo, as TVs são concessões públicas, as TVs têm que ter programação para as crianças, de qualidade. Ninguém tem. Porque o governo não fiscaliza, mas tem que ter.”

A nova pesquisa de Juliana busca entender o pequeno leitor, fazendo entrevistas diretamente com crianças para entender como a tecnologia interfere no acesso à informação, fazendo um comparativo entre Brasil e Portugal. Aguardamos essa nova pesquisa para conhecer mais sobre este público e suas ricas experiências de leitura!

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