Leitura“Palavras”, por Élida Gontijo

4 de maio de 2017

Convidamos a professora Élida Gontijo, do  Colégio Franciscano Regina Pacis, de Sete Lagoas (MG), para escrever no blog esta semana. Élida participou da Maratona do Livro Infantil com seus alunos do 5° ano; empolgada com as atividades e entusiasmada pela melhoria da Educação, agora ela nos presenteia com considerações importantíssimas sobre a arte de ouvir...

Convidamos a professora Élida Gontijo, do  Colégio Franciscano Regina Pacis, de Sete Lagoas (MG), para escrever no blog esta semana. Élida participou da Maratona do Livro Infantil com seus alunos do 5° ano; empolgada com as atividades e entusiasmada pela melhoria da Educação, agora ela nos presenteia com considerações importantíssimas sobre a arte de ouvir e interpretar o que o outro nos traz. Confira a seguir:

Ando muito preocupada com as palavras, frases, textos. Coisa normal para uma professora de Língua Portuguesa, mas não me preocupo só, pura e exclusivamente, com estes aspectos no meu trabalho e, sim, com o mundo que me cerca. Como as pessoas perderam a noção de que a palavra que sai da boca não volta mais e da repercussão que ela tem no coração, nos sentimentos de quem a escuta. Não há mais uma análise, uma reflexão antes de falar, tornou-se bonito magoar, ferir, mostrar uma posição de ditador, do poder acima de tudo.

Quantas interpretações distorcidas no texto que se chama ser humano. Se está feliz, incomoda alguém, logo a interpretação é de que algo está errado para tanta felicidade. Não se pode ser feliz, a felicidade está sempre atrelada a bens materiais. Se às vezes o texto-homem está um pouco  distraído ou mesmo triste, quantas interpretações, tantas divagações maldosas para chegar à resposta final. Já não se fazem leitores, escritores da história da vida como antigamente. Os valores se  perderam na concorrência de ser melhor que o outro, de ganhar elogios forçados, comprados a qualquer custo. Há desconfiança quando alguém pronuncia e emprega as palavras: amor, solidariedade ou mesmo a frase “Posso ajudar?”. Vem toda uma torrente de pré- julgamentos. Talvez a minha preocupação seja um cansaço de tanto usar as palavras, ordená-las, corrigi-las, olhar a concordância, mas na escola do amor, da fraternidade, dos textos embasados na fé o que prevalece é uma estrutura flexível de perdão, de um sujeito no singular, mas que luta pelo verbo no plural.

Peço a Deus que não me deixe ficar desiludida com a poesia da vida, que me faça acreditar que há mais adjetivos nos corações das pessoas. Não deixe que o vocabulário geral seja cheio só de frases no imperativo e que as exclamativas se percam pela falta  de encanto, admiração pelo mundo e pelo outro. Tomara que os verbos dentro da sintaxe da vida sejam transitivos, que notem que sozinhos não têm sentido, que todos precisam de complementos. Aguardo e tento policiar meu coração na espera de um tempo diferente em que as pessoas façam leituras mais significativas, reconheçam que tudo que nos cerca são textos, que haja um encantamento na análise do brilho do olhar do outro e que as palavras sejam pensadas, escritas, faladas com a entonação, a sinceridade, o amor de quem acredita na poesia da vida. Que assim seja.

Para contribuir com as reflexões da Élida, nós indicamos dois livros que consideramos valiosos por tratarem a educação e as relações humanas numa perspectiva afetiva, com a valorização do diálogo e do respeito ao outro. Ambos estão disponíveis na plataforma da Árvore. 

Encantar o mundo pela palavra
Rubem Alves & Carlos Rodrigues Brandão

“(…) quando falamos, estamos nos transformando em verbo para que uma outra pessoa possa se apropriar de nós” (Rubem Alves). “Encantar o mundo pela palavra” é um convite a adentrar a beleza e o encanto do universo das palavras, a supor por que causam elas tantas reações na gente.

 

 

Conversas com quem gosta de ensinar
Rubem Alves

Uma reunião de crônicas sobre educação de autoria de Rubem Alves, outra das grandes contribuições do autor aos educadores com sua sensibilidade ímpar e acuidade crítica.

 

 

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