LeituraOs segredos por trás das adaptações infantis

10 de outubro de 2016

Entrar no mundo dos clássicos da literatura é uma aventura para as crianças. Raramente, uma criança começa a gostar de ler com títulos como “Ilíada” ou “Odisseia” em suas versões originais. Por isso, há uma forma de introduzir essas obras para os pequenos leitores: as adaptações infantis. As adaptações podem ser atalhos interessantes para tornar...

Entrar no mundo dos clássicos da literatura é uma aventura para as crianças. Raramente, uma criança começa a gostar de ler com títulos como “Ilíada” ou “Odisseia” em suas versões originais. Por isso, há uma forma de introduzir essas obras para os pequenos leitores: as adaptações infantis. As adaptações podem ser atalhos interessantes para tornar esse universo acessível para as crianças. Para entender como esses clássicos se tornam palpáveis para jovens e crianças, a equipe do gutenblog entrevistou um dos maiores nomes da literatura infantojuvenil brasileira, o escritor Pedro Bandeira, autor de livros como A Droga da Obediência e o Pântano de Sangue, além de ter feito a adaptação de clássicos como “Hamlet” (com o título “Agora estou sozinha”), “O corcunda de Notre-Dame” (“O medo e a ternura”) e “Dom Casmurro”. Confira a entrevista:

Como começa uma adaptação de um clássico para o público infantil?
Uma adaptação nasce do meu desejo de contar determinada história que eu acho interessante. Eu quero antecipar o contato do leitor jovem com uma obra, porque eu sei que ele só poderia ler, quando ficasse mais velho. Por exemplo, se aparecer uma menininha de três anos e eu quiser me comunicar com ela, vou ter que adaptar a minha linguagem. É exatamente assim que acontece quando se vai falar com seu interlocutor. Você precisa conhecê-lo. Eu sou especialista em psicologia do desenvolvimento, então pretendo conhecer as diferentes maneiras de falar com as crianças. Um exemplo é a peça “Hamlet”, uma peça maravilhosa de Shakespeare. A linguagem é difícil e há uma série de exigências para você usufruir da história, então eu quis mostrar essa história, focando em meu interlocutor, um jovem que está no fundamental II.

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Como foi esse processo em Hamlet, que na sua adaptação é intitulada “Agora estou sozinha”?
Eu peguei o personagem Hamlet, que lido de trás para frente é Telmah, e transformei Hamlet em uma adolescente de 14 anos, chamada Telmah. Na história de Hamlet, seu pai morre e o fantasma dele aparece dizendo que foi assassinado pelo irmão. No caso de Thelma, aparece o fantasma da mãe, que foi assassinada pelo marido. Essa história transcorre como a história de Shakespeare, mas um pouco adaptada para o Brasil de hoje em uma linguagem conhecida pelo o meu público-alvo.

Qualquer obra pode ser adaptada?
Não. Eu não posso adaptar uma tragédia para uma criança de seis anos. A criança pequena tem outro tipo de interesse. Não posso fazer uma adaptação de um assassinato para as crianças de seis anos, para uma criança de nove anos, eu já posso.

Que tipos de modificações são possíveis em uma adaptação? 

A professora Nelly Novaes Coelho tem uma obra clássica em que diz que as histórias têm variantes e invariantes. Quando você vai adaptá-las, não se pode mexer nas invariantes, mas pode mexer nas variantes. Quando eu vou contar a história da Chapeuzinho Vermelho, o fato de ela ter um chapeuzinho é uma invariante, eu não posso mudar. Eu posso mexer e descrever a chapeuzinho de maneira diferente, mas o Lobo e a Chapeuzinho Vermelho têm que ser mantidos. Eu adaptei “O Corcunda de Notre Dame”, em que um guarda da catedral se apaixona por uma cigana chamada Esmeralda. Mas, na história do autor, ele morre. Eu não posso matá-lo, ele é meu herói. Na história original, morre todo mundo, eu não poderia fazer essa mortandade total, então eu tive que fazer um final feliz, matar só o canalha do vilão. Eu tenho essas delimitações, de acordo com o meu interlocutor.

“Adaptar uma linguagem não é, por exemplo, usar gírias”

Quais cuidados um autor precisa ter ao adaptar uma obra para não a simplificar além do necessário?

Você simplifica ao nível do seu interlocutor, se eu quero contar uma historinha para uma criança de quatro anos, eu tenho que dedicar ao nível da compreensão emocional de uma criança de quatro anos. Se eu quero que um aluno do fundamental I leia essa história, já posso usar uma linguagem um pouco mais sofisticada. O meu limite é o meu interlocutor, porque eu quero que ele me entenda. Se a obra é impossível de adaptar para uma criança de quatro anos, eu não posso adaptá-la.

O que não é recomendado fazer em uma adaptação?
Adaptar uma linguagem não é, por exemplo, usar gírias. Por que qual é a gíria atual dos jovens? Se o livro tiver 10 anos, ele vai morrer. Não posso usar gíria, nunca. Eu não uso gírias nos meus livros, eles estão escritos na norma culta, mas claro que não vou usar palavras complicadas e termos muito longos. Por exemplo, no livro a “Marca de uma Lágrima” (adaptação de Cyrano de Bergerac), eu queria dizer que a menina estava apaixonada por um garoto, no linguajar dos jovens o que é apaixonado? Eu tive que usar a palavra “apaixonada” mesmo, porque não tem outra. Eu não posso usar a gíria do momento, o livro teria morrido se eu tivesse feito isso. A personagem estava gamada pelo garoto, hoje em dia, ninguém fala isso.

“O importante é tentar antecipar uma história muito bonita para que meu leitor possa usufruir da beleza daquela obra mais cedo”

Nas adaptações, é preciso estabelecer um limite no número de páginas?
Você certamente tem um limite, de acordo com o seu interlocutor. Uma criança pequena não aguenta uma história muito longa, ela dorme. Como autor especializado em criança e adolescentes, eu sei até onde vai a atenção do meu leitor. Eu sei que para uma criança pequena não posso fazer uma história muito longa. Eu não posso apresentar um livro de 100 páginas para alguém de seis anos. A limitação de tamanho realmente existe. Esse é o medo que os adolescentes têm quando a escola exige que eles leiam obras do Machado de Assis ou José de Alencar. São livros muito grossos e esses alunos não conseguem ler e ficam chateados. Esses clássicos foram escritos para adultos cultos.

Qual é a importância das obras adaptadas para o público infantojuvenil?
Justamente antecipar o contato de um jovem ou de uma criança com obras que você considera muito boas e importantes, só que foram escritas com uma linguagem que ainda não dá para ser compreendida por esse público. O importante é tentar antecipar uma história muito bonita para que meu leitor possa usufruir da beleza daquela obra mais cedo. Muitas vezes a história é linda, mas o texto é muito difícil, pouca gente teria acesso a ele se não fossem as adaptações literárias ou cinematográficas.

Que clássico da literatura você ainda gostaria de adaptar?
Dos escritores brasileiros, eu gosto mais de Machado, talvez eu pudesse trabalhar com o “Quincas Borba”, por exemplo. Quincas tem algumas coisas interessantes, ia ser um trabalho grande, bonito e gostoso de fazer. Eu já adaptei a maioria dos meus mais queridos, tanto brasileiros como estrangeiros. Os contemporâneos não podemos adaptar, porque ainda não estão em domínio público.

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