EducaçãoO que aprender com o resultado do Enem?

21 de setembro de 2016

Nos últimos dias, foram divulgados os resultados no Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM. Os dados apresentam uma queda na média das notas e uma das informações que mais chama a atenção é o desempenho dos alunos na redação. A média das notas das provas de 2014 foi 9,7% mais baixa do que no...

Nos últimos dias, foram divulgados os resultados no Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM. Os dados apresentam uma queda na média das notas e uma das informações que mais chama a atenção é o desempenho dos alunos na redação.

A média das notas das provas de 2014 foi 9,7% mais baixa do que no ano anterior. Entre os 6,1 milhões de candidatos que fizeram a avaliação, 529 mil tiraram nota zero.

O tema da redação de 2014 propôs uma dissertação sobre a publicidade infantil no Brasil. Para tal atividade, os estudantes contavam com uma notícia sobre o tema, um infográfico e o trecho de um livro. Ainda assim, mais de 217 mil dos candidatos que zeraram a prova foram punidos por terem fugido do tema proposto.

Enquanto os 8,5% dos candidatos obtiveram a nota zero, apenas 250, o equivalente a 0,004% do total de estudantes conseguiram atingir a nota máxima.

Como os dados são recentes, ainda não é possível identificar a causa exata do resultado insatisfatório, mas durante uma coletiva de imprensa, o ministro da Educação Cid Gomes apresentou o seu palpite para explicar a queda nas notas de redação.

“Eu arriscaria uma tese em relação a redação: o tema de 2013 foi ‘lei seca’ e essa questão foi muito debatida, a mídia focou muito no tema”. O ministro compara a proposta de 2013 a do último ano: “sem dúvida foi um tema que não teve o mesmo grau de discussão nacional como aconteceu no tema de 2013”.

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Créditos: Wikimedia

O que podemos aprender com estes resultados?

A redação do ENEM é feita para analisar se um candidato está apto para se expressar e argumentar a respeito de um assunto. A especialista em educação da Guten, Letícia Reina, aponta que a questão da atualidade não pode ser um fator determinante: “Não deveria acontecer. São estudantes fazendo o ENEM, precisam ter repertório. Esse tipo de assunto precisa chegar nesses estudantes”.

O estudante que lê bem o enunciado, não foge do tema.

Outro ponto a ser considerado é o número de redações que fugiram da proposta, que pode ser visto como um indicativo de que a compreensão na leitura dos estudantes não está no nível esperado. “O estudante que lê bem o enunciado não foge do tema. Ele pode criar, ele pode pensar sobre o tema, desenvolver argumentos”. Explica Letícia Reina.

Um dos fatores importantes para o bom desenvolvimento da escrita é cultivar um repertório através da leitura. A especialista conta que os resultados insatisfatórios devem dar impulso a mudanças na didática das escolas: “A leitura é fundamental pra isso. Se ele fugiu da proposta, se ele não consegue nem compreender o tema, ele não conseguiu fazer uma leitura”.

“Ler significa não só decodificar, mas significa compreender o que você está lendo. Então, pra ele produzir, primeiro ele precisa ler bem. Ele precisa ter repertório.” Explica a especialista.

Para tornar eficaz o desenvolvimento da leitura, é preciso repensar o processo de aprendizagem: “Um resultado como esse faz a gente pensar que é preciso rever as estratégias de ensino de leitura”, segundo a educadora.

Como fazer isso? Uma das formas é apresentando textos reais, do dia a dia para os leitores, sendo eles estudantes, ou não. “Colocar na mão do aluno, desde pequenininho, os contos de fadas, notícias, fábulas, textos informativos, imagens, legendas… Apresentar pra ele textos que de fato circulam, e não apenas textos didatizados” – mostra Letícia.

Exemplos inspiradores

O entusiasmo pela leitura é um fator essencial para elaborar e organizar as ideias no papel. Esse é um dos segredos do sucesso de Cezar Vitor Vieira Pinheiro, que está entre os 250 estudantes com a nota máxima no ENEM e ainda obteve médias altas em outras áreas do conhecimento. Ele não se destaca apenas por isso, mas também por ter atingido uma nota tão elevada, mesmo com alguns pontos que poderiam desfavorecê-lo.

De acordo com reportagem na Folha de S. Paulo, Cezar tem apenas 14 anos e nem cursa o ensino médio ainda. Um menino de classe média baixa que vive em uma região pobre próximo ao Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Além disso, ele tem apenas 50% da audição em cada ouvido.

Ele não é o único, o mesmo aconteceu para Marina Pereira Pimento, de 17 anos. Marina ainda cursa o segundo ano do Ensino Médio e tem deficiência auditiva. Ela também está entre os 250 com nota máxima no ENEM. Durantes as aulas, na escola, a estudante acompanha os professores através de leitura labial.

Em entrevista para o site O Globo, ela contou a importância da leitura no seu desenvolvimento: “ler é uma coisa de que gosto muito, principalmente jornais, que leio todos os dias desde pequena. Daí é que vem minha facilidade em entender os temas sociais”.

O que fazer?

Educadores podem pensar em novas formas de enriquecer o repertório de leituras de seus alunos.

Cezar e Marina são exemplos de como a leitura pode interceder no desenvolvimento do aluno, mesmo com todas as adversidades. Os 250 alunos com nota máxima no ENEM obtiveram um ótimo desempenho, mas esse número ainda é insatisfatório. O alto número de redações com nota zero também serve como alerta.

Ambos os resultados pedem uma reformulação nas intervenções didáticas. Entretanto, educadores podem imediatamente pensar em novas formas de enriquecer o repertório de leituras de seus alunos: apresentar notícias reais como temas para discussão, perguntar qual a opinião dos alunos em relação a artigos de revistas, aumentar a variedade de gêneros apresentados aos estudantes… São algumas formas, simples e práticas, para começar esta importante revolução.

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