EducaçãoComo abordar uma notícia em sala de aula?

23 de setembro de 2016

A realidade provê conteúdos riquíssimos para um professor. Notícias dos mais variados assuntos levantam questões sociológicas e históricas sobre a variedade das línguas e culturas. Mas como o professor pode escolher uma notícia, selecionar uma abordagem e utilizá-la com seus alunos de forma produtiva? Tarefa difícil, trabalhosa, certo? Não… o Guten News conta tudo para...

A realidade provê conteúdos riquíssimos para um professor. Notícias dos mais variados assuntos levantam questões sociológicas e históricas sobre a variedade das línguas e culturas. Mas como o professor pode escolher uma notícia, selecionar uma abordagem e utilizá-la com seus alunos de forma produtiva?

Tarefa difícil, trabalhosa, certo? Não… o Guten News conta tudo para você. Tomemos como exemplo a notícia sobre o atentado ao jornal francês “Charlie Hebdo”. Vamos começar?

O ano de 2015 começou conturbado. Mal haviam passado as comemorações e festividades, e logo aconteceu o que muitos consideram como sendo um dos maiores atentados à imprensa: o jornal humorístico “Charlie Hebdo” foi alvo de um crime. Muito foi falado sobre o assunto. Várias são as colocações; porém, a pergunta que surge diante de um tema que gera tantas discussões é: como podemos abordá-lo em sala de aula?

O primeiro passo é escolher uma abordagem, um recorte. Como exemplo, selecionamos 3 diferentes formas de tratar o tema.

Notícias dos mais variados assuntos levantam questões sociológicas e históricas sobre a variedade das línguas e culturas.

“Charlie Hebdo” sob uma abordagem histórica:

Aqui, professor e alunos podem voltar alguns anos no tempo, mais precisamente para a década de 1960. Nesse período, a França via nascer um dos jornais mais polêmicos e controversos de sua história: o “Hara-kiri”. O jornal durou até 1969, quando uma contraparte dele surgiu. Essa vertente chamava-se: “Hara-kiri Hebdo”. Em novembro de 1970, a publicação trouxe em sua capa uma manchete que dizia: “Baile trágico em Colombey: 1 morte”. A charge comentava sobre o incêndio em uma discoteca que matou aproximadamente 146 pessoas. Porém, a matéria fazia um jogo duplo entre as mortes na discoteca e a morte do presidente francês Charles de Gaulle. Quando a charge foi publicada no semanário, o governo achou o editorial ofensivo e fechou o jornal. Quase que como uma consequência direta a esse fato, nascia o “Charlie Hebdo”.

Com a mesma visão editorial de seu antecessor, o “Charlie Hebdo” logo começou a incomodar as instituições e os poderosos. Além disso, expandiu seus horizontes para terras além França, fazendo do fundamentalismo islâmico um de seus principais alvos. Os atritos entre o jornal e os fundamentalistas islâmicos tiveram início em 2006, quando o mesmo republicou uma charge do periódico dinamarquês “Jyllands-Posten”. Uma onda de violência insurgiu contra as embaixadas dinamarquesas e, consequentemente, contra as embaixadas francesas. Anos depois, mais precisamente, em 2015, um episódio bem similar iria acontecer, porém de uma forma mais trágica. Diferentemente do que acontecera em 2006, agora várias foram as vítimas. Devemos destacar, que as causas de ambos atentados foram as mesmas: divergências de opinião.

Sob este recorte, o professor pode desenvolver um paralelo e mostrar como os extremismos e as divergências de opinião podem resultar em eventos drásticos na história da humanidade. Fatos históricos, como os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, podem ser analisados e desdobrados com o intuito de analisar qual o contexto em que ocorreram, quando e como se originaram.

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Os atritos entre o jornal e os fundamentalistas islâmicos tiveram início em 2006. Créditos: Shutterstock.

Charlie Hebdo” sob uma visão linguística

O quanto que um nome pode dizer sobre uma pessoa, um livro, um filme, ou no caso, um jornal? Muito. O nome hara-kiri, por exemplo, fazia referência ao ritual de autoagressão, cometido pelos samurais no Japão. Essa analogia implícita no nome do antecessor do “Charlie Hebdo” fala muito sobre a personalidade e ímpeto do jornal. Os professores de linguagens podem mostrar aos alunos o quão importante é a escolha de uma palavra em um texto e quais são os significados implícitos em cada expressão. O termo “Hebdo” é uma abreviação da palavra “hebdomadário”, que quer dizer semanal. Esse termo também existe no português, que assim como o francês, também é uma língua latina. Dessa forma, ao traduzir “Hara-kiri Hebdo” chegamos a algo como: “Suicídio semanal”.

O professor que queira ir além pode explorar o peso das palavras e intenções em um texto ou em uma charge. Após o atentado, uma onda de manifestações teve início. Nela víamos frequentemente uma série de cartazes e panfletos com os dizeres “Je suis Charlie”, ou em português, “Eu sou Charlie”. Essa frase se espelhou por todo o mundo, tomando conta das ruas e também das redes sociais. Mas afinal, qual mensagem os manifestantes queriam passar ao mundo? Que valores nacionais pretendiam mostrar com tal expressão?

Os professores de linguagens podem mostrar aos alunos o quão importante é a escolha de uma palavra.

Charlie Hebdo” sob uma abordagem sociológica

O atentado fez com que questões sociais e filosóficas sobre os limites da liberdade e do humor também surgissem. O ponto mais polêmico da discussão está na intersecção das demais perspectivas já mencionadas, que podem ser desdobradas em outras várias colocações. Muitos intelectuais vêm pensando sobre o assunto, e isso não é de hoje. O psicólogo israelense Ariel Merali, que pesquisa o comportamento de terroristas há mais de 30 anos, diz que a causa que impulsiona os atos terroristas não é religiosa. Outra constatação interessante é que os terroristas não buscam vingança contra um alvo específico. Segundo Ariel, esses extremistas encontram nos feitos de barbárie a oportunidade de realizar um grande ato, que justifique toda a sua frustração social. Questões referentes à aceitação social podem ser discutidas neste momento, pois jovens tímidos, introspectivos e com problemas de autoestima, são os alvos prediletos dos extremistas.

Dessa forma, sob a perspectiva de alguns sociólogos, o que motiva os terroristas, nada mais é, do que a necessidade de se sentir especial. Ademais, questões sobre até que ponto é possível expressar suas próprias opiniões e quando é o momento para calar e respeitar as fronteiras dos outros indivíduos também podem ser abordadas pelo educador. Aqui, o professor pode fazer seleções de artigos de opinião que reflitam pontos de vista contrastantes. Pode propor também que os alunos se posicionem, expondo seus argumentos. Uma ótima oportunidade para, além de praticar o diálogo, exercitar a argumentação e posicionamento crítico, não é?

E agora, educador?

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O educador deve funcionar como uma espécie de baú, ou arca, onde os educandos possam recorrer e obter o suporte necessário. Créditos Shutterstock

Mais do que tentar encontrar respostas, devemos incentivar o debate, e prover um ambiente rico em informações e questões que repertoriem o estudante e levantem questionamentos. O educador, nesse momento, deve funcionar como uma espécie de baú, ou arca, onde os educandos possam recorrer e obter o suporte necessário, para assim, refletir sobre os fatos. Quanto mais bagagem o professor tiver, melhor será a discussão, e mais interesse os alunos terão pelo assunto. Logo, a sua bagagem se multiplicará.

Além disso, vivemos em um mundo globalizado e, dessa forma, um acontecimento de tais proporções pode ser desenvolvido de várias formas, mostrando um recorte interdisciplinar. Tente levar as suas ideias para as outras disciplinas. Em muitos casos, desenvolver um pensamento em grupo, ainda mais quando um tema é polêmico, pode ser a melhor opção. Bom trabalho!

Nota: o Guten News publicou uma matéria sobre o atentado ao “Charlie Hebdo” em sua 7ª edição

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